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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Resenha Crítica: A Hora da Estrela

"Macabéa" interpretada por Marcélia Cartaxo no filme de 1985



“A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida?”


Confesso que nunca havia lido uma obra sequer de Clarice Lispector, entretanto, há muito tempo já planejava a leitura de algumas de suas obras. No final de 2011 recebi a indicação da obra "A Hora da Estrela" por parte de uma amiga - aliás, acabo de perceber que fui pouco gentil e não a agredeci pela indicação, então fica aqui o meu muito obrigado. Eis então que tomei coragem de iniciar a leitura do livrinho - que fique claro que o uso do diminutivo aqui aponta apenas para o número reduzido de páginas da obra - e descobrir de onde advém toda essa grandiosidade que o nome "Clarice Lispector" carrega consigo, a ponto de ser equiparada com ninguém menos que Franz Kafka, escritor mundialmente conhecido pela sua literatura de ficção que aborda sobretudo a crise existencial.

A obra de Lispector nos apresenta a mesma ideia - a crise existencial de duas pessoas: Macabéa, uma alagoana que vem tentar a vida no Rio de Janeiro e Rodrigo S.M., um escritor fictício que narra a vida de Macabéa.

A nordestina simplesmente ostenta a vida mais sofrida que já constatei em minhas caminhadas errantes pelo mundo literário. Podemos fazer um paralelo entre A Hora da Estrela e Vidas Secas de Graciliano Ramos. Nas duas obras os protagonistas estão resignados com as vidas que têm, no entanto, Fabiano tem consciência da posição que ocupa na sociedade (é um bicho movido pelos instintos – palavras do próprio Fabiano) já Macabéa, não possui essa visão crítica pelo simples fato de não se questionar. Esse comportamento passivo a tudo é fruto da educação rígida e cruel que recebeu de sua tia no sertão nordestino. O fato é que ambos são vitimados pelo determinismo selvagem do sertão nordestino.

O enredo nos prende através de duas ferramentas usadas por Clarice: a tensão que Rodrigo S.M. sofre através do processo de descrição da vida de sua personagem, o que o faz refletir sobre a finalidade de sua existência e o propósito pelo qual é escritor. Rodrigo diz que escreve porque o ato de escrever é a única coisa que dá sentido a sua vida, mas no fundo podemos notar que ele escreve de maneira forçada. Pode-se concluir que o autor fictício é uma pessoa inconformada com a realidade dramática de alguns brasileiros, e mais: ele se sente culpado pela infelicidade dos infelizes, e decide relatar a história de Macabéa como forma redenção.

A outra ferramente utilizada é a ingenuidade - seria exageiro falar em cegueira? - de Macabéa. O leitor acaba ficando chocado com a incapacidade da nordestina de enxergar o seu estado. Ela é invisível para todos, menos para Rodrigo e para nós, leitores, e não consegue perceber essa invisibilidade. Isso nos causa um sentimento de extrema agonia e impotência. Arrisco dizer que Clarice escreveu este livro para cada leitor se sentir exatamente como Rodrigo S.M., e passe a se preocupar mais com as inúmeras Macabéas que perambulam por aí, sem rumo.

O final da obra não é menos triste do que todo o restante. Macabéa descobre que está com começo de tuberculose e decide ir até uma cartomante com o dinheiro que uma colega a empresta. Madame Carlota revela um novo destino para a moça: sua vida mudaria a partir do momento que ela saísse daquela casa. Apaixonar-se-ia por um gringo chamado Hans e sua vida mudaria por completo. De fato o vaticínio de Carlota não estava completamente errado, pois o destino da nordestina mudou no exato momento em que saiu daquele lugar. Ao atravessar a rua, foi atropelada por um Mercedes amarelo. Estirada no chão por algum tempo, Macabéa atraiu a atenção de várias pessoas, que se reuniram ao seu redor. Este momento justifica o título do livro. Macabéa, a mulher que sonhava em ser igual a Marylin Monroe e sempre fora invisível aos olhos da sociedade, tem agora seu momento sublime: a morte é representada como o trecho mais importante e belo da vida de cada ser humano, e então a transição ocorre – Macabéa é enxergada pela sociedade. É a hora da estrela brilhar.

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